segunda-feira, 20 de abril de 2009

(Surrealidades) - Exercício do sonho I


Ouvi um barulho estranho invadir o quarto. Estava sentada diante do espelho e sentia uma mistura de medo, angústia e expectativa... Logo percebi que o barulho parecia o voo de algum inseto, aqueles horrendos, enormes, que só o bater de suas asas nos causa tormento. No entanto, passou voando diante de mim uma joaninha, se é que posso chamar de joaninha, imensa e redonda, joaninha de sonho, mas era de fato uma joaninha.
Na cozinha, eu vestia uma meia calça preta, enquanto via minha tia preparar um café, sabia que a joaninha estava lá fora, sabia que ela me esperava, a sensação era de que ela me esperaria sempre... Da janela via que era dia, minha tia falava de tantos assuntos e eu apenas fingia prestar atenção, novamente a sensação de medo, angústia e expectativa. Sai da cozinha vestindo somente a meia calça, ouvi minha tia dizer que iria ficar resfriada. Lá fora já era noite e não conseguia enxergar a joaninha, chamava por ela em tom baixo, não sei por que, talvez porque todos já estivessem dormindo... Mas ela não aparecia... A angústia começou a aumentar, mas o sentimento de expectativa me deixava feliz.
Na rodoviária, estava vestida, avistava um ônibus chegando, sentia meus músculos enrijecidos, uma tensão causada pela espera. Pessoas desciam, mas eu não conseguia ver seu rosto, não sabia por quem esperava, ou sabia, mas só iria ter certeza quando olhasse seus olhos. Com dificuldade vi seu rosto através da janela fumê do ônibus, uma mistura de medo e alívio, era um homem, ainda sentado em uma poltrona, não olhava para o lado, nem fazia menção em descer, minha angústia aumentava, seu olhar estava baixo e assim permaneceu. Vinham em minha direção algumas pessoas, que me abraçavam e faziam festa por me verem ali, eu me sentia acolhida e feliz, mas a angústia não passava... Enquanto tentava disfarçar minha aflição diante dos amigos percebia que o ônibus se afastava e mais ninguém descera...
Em casa, chorava ao ver a joaninha agoniando no chão do meu quarto, já estava sem uma asa e tentava voar com dificuldade com a outra, me sentia impotente, tentava colar com cola a outra asa, mas seu corpo ia se desmanchando, quanto mais lhe tocava mais ela ia se desfazendo... Já sem lágrimas e sem nenhum sentimento aparente peguei um pedaço de papel higiênico, juntei os seus restos, joguei no vaso sanitário e dei descarga.
Lembro-me de dizer: Foi melhor assim.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"O amor, na ordem do impossível, não cessa de se escrever" - O amor-sonho


O amor, um delírio que se inscreve no real, no imaginário e no simbólico, que se desconfigura na ordem e na desordem se instala, é o que não cessa de não se compreender. Somente assim se sustenta como amor, lugar da loucura, do devaneio e do caos, do nó borromeano, segundo Lacan: imagem, sujeito e ser, em diferentes registros.
O amor, configurado na mulher, Freud já explicou... Ausência do falo, o gozo da fala enquanto significante, o Outro da falta, o amor infinito, ao qual não se tem meios de dar nenhuma significação, o amor poético, que escapa o campo da repetição e do narcisismo, o amor louco.
Contudo, o sentimento transpõe às idéias. Certa vez ouvi de alguém especial: “Você é puro amor”. De fato, estou na ordem do real, do simbólico e do imaginário, sou amor-sonho, que dorme e acorda e, num delírio, não se distingue no sonho ou na realidade, pois é a própria irrealidade do sonho. Sou apenas sua presença e morte, sou loucura e dor, sou de fato amor, sou mulher.
Se me refaço, refaço também o amor, eternizando-me no amor-sonho, paradoxo do próprio amor.
As intensidades que em mim existem e tornam-me presença viva e pulsante no espaço somente hão de cessar quando o amor lhes faltar... Mas se na falta ainda se inscreve o amor... Sou inteira amor, amor-sonho – delírio na realidade – que mesmo no impossível não cessa de se escrever, pois o vejo além da ponta do nariz.