quarta-feira, 13 de maio de 2009

(Surrealidades) - Exercício do sonho II


Duas mulheres conversam na sala, as duas estão um pouco confusas e relembram fatos do passado. Uma delas sente-se atormentada por não conseguir lembrar de parte de determinado fato que está contando, e diz:

__ Vou lembrar, só preciso dormir um pouco.

As duas, deitadas em camas paralelas se olham e, aos poucos, fecham os olhos. Adormecem.

Estão em uma praça, cada uma em uma extremidade, se vêm de longe, mas por instinto não conseguem se mover, comunicam-se através de gritos que ressoam eco no espaço, suas vozes se confundem. As duas agora têm o mesmo rosto.

Uma delas se esforça para voltar à "lucidez".

Ao abrir os olhos observa que a outra ainda dorme.

Na janela conversam:

__ Posso pular primeiro, assim, quando você chegar lá me procure no último corredor.

__ Espere-me no meio da grama.

__ Certo, último corredor, no meio da grama.

sábado, 9 de maio de 2009

Psico... análise... do impossível

Eu te batizo, Real, a ti, enquanto terceira dimensão...Eu te batizo, Real, porque se não existisses, seria preciso inventar-te.
Jacques Lacan (1973a)

(...) a pulsão de morte é o real na medida em que ele só pode ser pensado como impossível. Quer dizer que, sempre que ele mostra a ponta do nariz, ele é impensável. Abordar esse impossível não poderia constituir uma esperança, posto que é impensável, é a morte - e o fato de a morte não poder ser pensada é o fundamento do real.
Jacques Lacan (Seminário 23)

(...) o real, aquele de que se trata no que é chamado de meu pensamento, é sempre um pedaço, um caroço. É com certeza, um caroço em torno do qual o pensamento divaga, mas seu estigma, o do real como tal, consiste em não se ligar a nada. Pelo menos é assim que concebo o real.

(...) a pulsão de morte é o real na medida em que ele só pode ser pensado como impossível. Quer dizer que, sempre que ele mostra a ponta do nariz, ele é impensável. Abordar esse impossível não poderia constituir uma esperança, posto que é impensável, é a morte - e o fato de a morte não poder ser pensada é o fundamento do real.
Jacques Lacan (Seminário 23)

Digo sempre a verdade, não toda... pois, dizê-la toda, não se consegue... Dizê-la toda é impossível, materialmente... faltam as palavras. É justamente por esse impossível que a verdade toca o Real.
Jacques Lacan (1973b)

O Real pode ser percebido como algo duro, impossível de ser captado por qualquer instrumento da realidade ou da virtualidade – palavra ou imagem – o que faz com que todos estejamos um pouco fora do camino. Há uma pedra que nos desvia. A ninguém é dado o direito à certeza de sua percepção. Se delirar, etmologicamente, quer dizer, “sair do caminho”, todos deliramos.
J. Forbes (2005)

O que é o Real? É a pergunta que não se deve fazer porque até a forma como ela se apresenta não convém ao Real, tal como se impõem – ao menos segundo Lacan – de elaborá-la na experiência analítica.
J. A. Miller (1998)

O Real não engana
Difícil tarefa escrever sobre aquilo que jamais se compreenderá.
A obra de Lacan permanece aberta deixando a impossibilidade objetiva da certeza, do concluir. Lacan pensa o sujeito despido do saber, do significante, do sentido.
O discurso com o seguimento contínuo da fala promovido pela voz, formando um sentido lógico e ordenado não é o que conta.
Somente o discurso com ausência de sentido, desencaixado, poderá abrir uma via de acesso para o Real. O Real que é totalmente fora do compreender e do saber.
O Real batizado por Lacan e por ele representado como o nó borromeano.
O Real é destituído de racionalidade, não se coaduna com a realidade e por isso não pára de não se incluir, voltando sempre na correnteza do significante, para dela escapar.
O Real é o insólito, a quebra de joelhos das nossas certezas, o que desfaz a arrumação das nossas defesas. Algo se despedaça, se rompe, abrindo-se um espaço.
O Real é de cada um. É uma assinatura.
No último ensino de Lacan, o significante e o significado são só semblantes do Real.
Repletos de imaginário e de identificação, procuramos uma análise em busca da verdade, nos defrontamos com a desilusão e acabamos sendo laçados pelo Real.
O Real é imperativo sobre a verdade que é tecida dentro do sentido.
Lacan foi além dos limites do inconsciente freudiano fazendo com que ele, o inconsciente, ficasse apenas como um monólogo ecoando no semblante, na defensiva do Real.
“Desarrumar a defesa é a orientação maior da prática que se segue ao último ensino de Lacan. O coração, a matriz da operação analítica... ”(Miller, 2002).
O significante, que é passível de mentir, faz com que na mentira não haja um desligamento total entre o Real e o sentido.
A mentira traz à tona o simbólico, determinando seu caráter.
Podemos, então, concluir que enquanto o simbólico mente o real não engana.
Eu escrevo para falar aquilo que não pode ser dito. Para compreender o que jamais saberei. Na tentativa impossível daquilo que escapa.
MIRANDA, Maria Teresa (2005)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Subestimando a inteligência para não enlouquecer


Percebo a inteligência como local onde o pensamento é fecundado. Ali o pensamento é matéria, criada a partir de nossa intensa atividade cerebral: masturbação do pensamento e gozo pela idéia. Nascem então a linguagem e a ação, reveladas através do corpo, onde o pensamento se faz carne.
O corpo se coloca em seu meio social, assim ele é cultura, dogma, civilização, organização... E onde a subjetividade?
Será que a famosa frase de Descartes: “Penso, logo existo” é hoje bem compreendida?
Subestimar a inteligência torna-se um método contraceptivo eficaz no caso de desejar evitar a fecundação do pensamento. Em casos extremos, a autosubestimação da inteligência acontece por dois simples motivos: para que não seja feita por terceiros e para que não sejamos vistos como loucos, pois pensar demais enlouquece.