segunda-feira, 21 de setembro de 2009

(Surrealidades) - Exercício do sonho III


Caminhando por uma rua ignota, ouvia barulhos de carros que pareciam passar por mim em alta velocidade, e um sopro de vento mais forte ressoava ao mesmo tempo em que o os ruídos submergiam meus ouvidos. Mas simplesmente não olhava para o lado, com a cabeça baixa permanecia, observando a calçada; reparava todos os seus detalhes, cada ladrilho, cada relevo, e assim, os meus pés, tão brancos e as unhas vermelhas. Meus passos lentos não manifestavam pressa nem dúvida do caminho a ser percorrido.
Percebia que o barulho dos carros começava a ficar cada vez mais distante e um novo som surgia... Ainda olhando para baixo comecei a observar que ondas começavam a tocar meus pés. Sentia que algo alí se transformava. Olhei finalmente para o lado e vi o mar; a rua, os carros, os postes desapareceram e não havia areia, somente o mar e a calçada.
Continuava a caminhada, agora olhando para o céu, para o mar e voltava a olhar os pés, cobertos e descobertos pela água. Era uma sensação leve, a água gelada, o barulho das ondas, e nada me surpreendia...
Percebi que em minha direção se aproximava uma quantidade imensurável de aves, eram de todos os tipos e todas as cores e em minha percepção voavam tão devagar que parecia que o encontro ainda demoraria. Com dificuldade tentava calcular de onde abrolhavam, até que minha visão alcançou a silhueta de uma mulher. Ela estava atrás de todas aquelas aves, e foi quando pasmei, as aves saiam de sua boca, de seus ouvidos e por trás de seu corpo... E ela a caminhar lentamente, sem nenhum movimento não fosse os seus passos.
As aves ficavam cada vez mais próximas e num deslumbramento elas me atravessavam, sem que eu manifestasse qualquer reação, somente admirava a graça daquela cena. O corpo da mulher ficava cada vez mais visível, mas não reconhecível, seu rosto não se via, pois estava coberto pelo bando.
Quando o corpo da mulher estava bem próximo previ o acontecimento, ele atravessou o meu e, num lapso e sem qualquer dúvida concluí: era eu.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A respeito das realidades múltiplas...


“Os sonhos dos homens são de duas classes. Uns, cheios de vida cotidiana e suas preocupações, seus desejos, seus vícios, combinam-se de uma maneira mais ou menos estranha com os objetos percebidos durante o dia que indiscretamente se fixaram sobre a vasta tela da memória. Eis os sonho natural; é o próprio homem. Mas e a outra espécie de sonho? O sonho absurdo, imprevisto, sem relação nem conexão com o caráter, a vida e as paixões do adormecido? Este sonho que chamarei de hieroglífico, representa evidentemente o lado sobrenatural da vida, e é justamente por ser absurdo que os antigos julgavam-o divino. Como é inexplicável pelas causas naturais, atribuíram-lhe uma causa exterior ao homem; e ainda hoje, sem falar dos oniroman-cistas, existe uma escola filosófica que vê nos sonhos deste gênero ora uma admoestação, ora um conselho; em suma, um quadro simbólico e moral gerado no próprio espírito do homem adormecido. É um dicionário que se precisa estudar, uma língua cuja chave podem obter os sábios” (Baudelaire)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Corpoespaçotempo

Há uma certa contaminação de vida na performance, prolixa pelas vibrações latentes de um corpo que se coloca no meio dos destroços de uma arte em desconstrução. Um corpo que se transcreve como linguagem da performance e que, encarnado por devires, busca na experiência cênica sua singularidade. Não há acabamentos e moldes no corpo performático, seu processo de recriação é infindável e está na ordem do caos, onde encontra o seu não-lugar. A partir desta análise é possível compreender o “estado de corpo” na cena performática, que se manifesta dentro de um processo autofágico e através de sua desorganização torna-se capaz de se refazer a cada instante em busca da eminência da ação. Para tanto, é necessário ainda refletir sobre a atuação do corpo na construção e na desconstrução de imagens, capazes de revelar o desenho de uma linguagem cênica poética, onde não há palavras, nem ao menos semântica; o que se escreve é apenas o corpo no vazio e o vazio no corpo, que preenchido no espaço e no tempo torna-se ação. Assim, corpoespaçotempo é a manifestação total do corpo em ação na performance. Imerso na profundidade do instante, o corpo, em devir, torna-se capaz de se escrever no espaço e no tempo em que se faz presença, configurando-se como linguagem pura e viva da cena.

Trabalho completo em: http://www.etnocenologia.org/vicoloquio/index.php?option=com_content&view=article&id=92:laila-klair-araujo-pifano-o-corpo-linguagem-da-performance-corpoespacotempo&catid=2:textos-completos&Itemid=15


quarta-feira, 13 de maio de 2009

(Surrealidades) - Exercício do sonho II


Duas mulheres conversam na sala, as duas estão um pouco confusas e relembram fatos do passado. Uma delas sente-se atormentada por não conseguir lembrar de parte de determinado fato que está contando, e diz:

__ Vou lembrar, só preciso dormir um pouco.

As duas, deitadas em camas paralelas se olham e, aos poucos, fecham os olhos. Adormecem.

Estão em uma praça, cada uma em uma extremidade, se vêm de longe, mas por instinto não conseguem se mover, comunicam-se através de gritos que ressoam eco no espaço, suas vozes se confundem. As duas agora têm o mesmo rosto.

Uma delas se esforça para voltar à "lucidez".

Ao abrir os olhos observa que a outra ainda dorme.

Na janela conversam:

__ Posso pular primeiro, assim, quando você chegar lá me procure no último corredor.

__ Espere-me no meio da grama.

__ Certo, último corredor, no meio da grama.

sábado, 9 de maio de 2009

Psico... análise... do impossível

Eu te batizo, Real, a ti, enquanto terceira dimensão...Eu te batizo, Real, porque se não existisses, seria preciso inventar-te.
Jacques Lacan (1973a)

(...) a pulsão de morte é o real na medida em que ele só pode ser pensado como impossível. Quer dizer que, sempre que ele mostra a ponta do nariz, ele é impensável. Abordar esse impossível não poderia constituir uma esperança, posto que é impensável, é a morte - e o fato de a morte não poder ser pensada é o fundamento do real.
Jacques Lacan (Seminário 23)

(...) o real, aquele de que se trata no que é chamado de meu pensamento, é sempre um pedaço, um caroço. É com certeza, um caroço em torno do qual o pensamento divaga, mas seu estigma, o do real como tal, consiste em não se ligar a nada. Pelo menos é assim que concebo o real.

(...) a pulsão de morte é o real na medida em que ele só pode ser pensado como impossível. Quer dizer que, sempre que ele mostra a ponta do nariz, ele é impensável. Abordar esse impossível não poderia constituir uma esperança, posto que é impensável, é a morte - e o fato de a morte não poder ser pensada é o fundamento do real.
Jacques Lacan (Seminário 23)

Digo sempre a verdade, não toda... pois, dizê-la toda, não se consegue... Dizê-la toda é impossível, materialmente... faltam as palavras. É justamente por esse impossível que a verdade toca o Real.
Jacques Lacan (1973b)

O Real pode ser percebido como algo duro, impossível de ser captado por qualquer instrumento da realidade ou da virtualidade – palavra ou imagem – o que faz com que todos estejamos um pouco fora do camino. Há uma pedra que nos desvia. A ninguém é dado o direito à certeza de sua percepção. Se delirar, etmologicamente, quer dizer, “sair do caminho”, todos deliramos.
J. Forbes (2005)

O que é o Real? É a pergunta que não se deve fazer porque até a forma como ela se apresenta não convém ao Real, tal como se impõem – ao menos segundo Lacan – de elaborá-la na experiência analítica.
J. A. Miller (1998)

O Real não engana
Difícil tarefa escrever sobre aquilo que jamais se compreenderá.
A obra de Lacan permanece aberta deixando a impossibilidade objetiva da certeza, do concluir. Lacan pensa o sujeito despido do saber, do significante, do sentido.
O discurso com o seguimento contínuo da fala promovido pela voz, formando um sentido lógico e ordenado não é o que conta.
Somente o discurso com ausência de sentido, desencaixado, poderá abrir uma via de acesso para o Real. O Real que é totalmente fora do compreender e do saber.
O Real batizado por Lacan e por ele representado como o nó borromeano.
O Real é destituído de racionalidade, não se coaduna com a realidade e por isso não pára de não se incluir, voltando sempre na correnteza do significante, para dela escapar.
O Real é o insólito, a quebra de joelhos das nossas certezas, o que desfaz a arrumação das nossas defesas. Algo se despedaça, se rompe, abrindo-se um espaço.
O Real é de cada um. É uma assinatura.
No último ensino de Lacan, o significante e o significado são só semblantes do Real.
Repletos de imaginário e de identificação, procuramos uma análise em busca da verdade, nos defrontamos com a desilusão e acabamos sendo laçados pelo Real.
O Real é imperativo sobre a verdade que é tecida dentro do sentido.
Lacan foi além dos limites do inconsciente freudiano fazendo com que ele, o inconsciente, ficasse apenas como um monólogo ecoando no semblante, na defensiva do Real.
“Desarrumar a defesa é a orientação maior da prática que se segue ao último ensino de Lacan. O coração, a matriz da operação analítica... ”(Miller, 2002).
O significante, que é passível de mentir, faz com que na mentira não haja um desligamento total entre o Real e o sentido.
A mentira traz à tona o simbólico, determinando seu caráter.
Podemos, então, concluir que enquanto o simbólico mente o real não engana.
Eu escrevo para falar aquilo que não pode ser dito. Para compreender o que jamais saberei. Na tentativa impossível daquilo que escapa.
MIRANDA, Maria Teresa (2005)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Subestimando a inteligência para não enlouquecer


Percebo a inteligência como local onde o pensamento é fecundado. Ali o pensamento é matéria, criada a partir de nossa intensa atividade cerebral: masturbação do pensamento e gozo pela idéia. Nascem então a linguagem e a ação, reveladas através do corpo, onde o pensamento se faz carne.
O corpo se coloca em seu meio social, assim ele é cultura, dogma, civilização, organização... E onde a subjetividade?
Será que a famosa frase de Descartes: “Penso, logo existo” é hoje bem compreendida?
Subestimar a inteligência torna-se um método contraceptivo eficaz no caso de desejar evitar a fecundação do pensamento. Em casos extremos, a autosubestimação da inteligência acontece por dois simples motivos: para que não seja feita por terceiros e para que não sejamos vistos como loucos, pois pensar demais enlouquece.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

(Surrealidades) - Exercício do sonho I


Ouvi um barulho estranho invadir o quarto. Estava sentada diante do espelho e sentia uma mistura de medo, angústia e expectativa... Logo percebi que o barulho parecia o voo de algum inseto, aqueles horrendos, enormes, que só o bater de suas asas nos causa tormento. No entanto, passou voando diante de mim uma joaninha, se é que posso chamar de joaninha, imensa e redonda, joaninha de sonho, mas era de fato uma joaninha.
Na cozinha, eu vestia uma meia calça preta, enquanto via minha tia preparar um café, sabia que a joaninha estava lá fora, sabia que ela me esperava, a sensação era de que ela me esperaria sempre... Da janela via que era dia, minha tia falava de tantos assuntos e eu apenas fingia prestar atenção, novamente a sensação de medo, angústia e expectativa. Sai da cozinha vestindo somente a meia calça, ouvi minha tia dizer que iria ficar resfriada. Lá fora já era noite e não conseguia enxergar a joaninha, chamava por ela em tom baixo, não sei por que, talvez porque todos já estivessem dormindo... Mas ela não aparecia... A angústia começou a aumentar, mas o sentimento de expectativa me deixava feliz.
Na rodoviária, estava vestida, avistava um ônibus chegando, sentia meus músculos enrijecidos, uma tensão causada pela espera. Pessoas desciam, mas eu não conseguia ver seu rosto, não sabia por quem esperava, ou sabia, mas só iria ter certeza quando olhasse seus olhos. Com dificuldade vi seu rosto através da janela fumê do ônibus, uma mistura de medo e alívio, era um homem, ainda sentado em uma poltrona, não olhava para o lado, nem fazia menção em descer, minha angústia aumentava, seu olhar estava baixo e assim permaneceu. Vinham em minha direção algumas pessoas, que me abraçavam e faziam festa por me verem ali, eu me sentia acolhida e feliz, mas a angústia não passava... Enquanto tentava disfarçar minha aflição diante dos amigos percebia que o ônibus se afastava e mais ninguém descera...
Em casa, chorava ao ver a joaninha agoniando no chão do meu quarto, já estava sem uma asa e tentava voar com dificuldade com a outra, me sentia impotente, tentava colar com cola a outra asa, mas seu corpo ia se desmanchando, quanto mais lhe tocava mais ela ia se desfazendo... Já sem lágrimas e sem nenhum sentimento aparente peguei um pedaço de papel higiênico, juntei os seus restos, joguei no vaso sanitário e dei descarga.
Lembro-me de dizer: Foi melhor assim.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"O amor, na ordem do impossível, não cessa de se escrever" - O amor-sonho


O amor, um delírio que se inscreve no real, no imaginário e no simbólico, que se desconfigura na ordem e na desordem se instala, é o que não cessa de não se compreender. Somente assim se sustenta como amor, lugar da loucura, do devaneio e do caos, do nó borromeano, segundo Lacan: imagem, sujeito e ser, em diferentes registros.
O amor, configurado na mulher, Freud já explicou... Ausência do falo, o gozo da fala enquanto significante, o Outro da falta, o amor infinito, ao qual não se tem meios de dar nenhuma significação, o amor poético, que escapa o campo da repetição e do narcisismo, o amor louco.
Contudo, o sentimento transpõe às idéias. Certa vez ouvi de alguém especial: “Você é puro amor”. De fato, estou na ordem do real, do simbólico e do imaginário, sou amor-sonho, que dorme e acorda e, num delírio, não se distingue no sonho ou na realidade, pois é a própria irrealidade do sonho. Sou apenas sua presença e morte, sou loucura e dor, sou de fato amor, sou mulher.
Se me refaço, refaço também o amor, eternizando-me no amor-sonho, paradoxo do próprio amor.
As intensidades que em mim existem e tornam-me presença viva e pulsante no espaço somente hão de cessar quando o amor lhes faltar... Mas se na falta ainda se inscreve o amor... Sou inteira amor, amor-sonho – delírio na realidade – que mesmo no impossível não cessa de se escrever, pois o vejo além da ponta do nariz.

terça-feira, 31 de março de 2009

Conjugando-me

Dia estranho...

Pretérito
Pretérito do pretérito
Pretérito imperfeito
Pretérito perfeito
Pretérito mais que perfeito
Futuro (????????)
Futuro do presente
Confundem-se (no)
Presente
Que por si só rouba a perfeição, a imperfeição e a máxima perfeição do pretérito.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Ilusão (Des) Ilusão – Simples noção de perspectiva


“É necessário perder a ilusão para encontrar sentido em todas as coisas.”

Vivemos imersos na ilusão.
Na constante e agônica busca do sentido necessitamos desesperadamente enxergar o “real”. Não podemos mais ser enganados, iludidos, principalmente por nós mesmos!
Ouso dizer: ilusão é uma simples noção de perspectiva, ora, ligadas ao ponto de fuga as linhas que conectam os lugares, as pessoas, os objetos, o tempo, criam profundidade nas relações entre estes, o que submerge a noção do “real” e nos torna seres cada vez mais “iludidos”.
(Des)iludir faz-se tarefa simples! Desfazendo as linhas conectivas quebram-se as relações, dissolve-se a profundidade, perde-se a noção de distância, destrói-se a perspectiva! A linha do horizonte, aquela onde se situam os nossos pontos de fuga torna-se menos evidente e assim tudo fica na superfície, mais próximo, mais “real”, mais (des) iludido.
Simples?! Talvez...
No entanto, ouso perguntar: Há sentido em uma vida sem profundidade, sem perspectiva, sem ilusão?

sexta-feira, 27 de março de 2009

Corpos de luz


Corpos espalhados... Reestruturam-se a cada vibração.
Corpos que emergem no espaço, conectados, desconectados.
Corpo presença... Corpo tornando presença... O som no corpo materializa a alma, preenchendo os espaços que são continuamente atravessados por fluxos e intensidades.
Nas palavras de Daniel Lins:
“Os possíveis agora se reinventam e se redistribuem o tempo todo, ao sabor de ondas de fluxos, que desmancham formas de realidade e geram outras, que acabam igualmente dispersando-se no oceano, levadas pelo movimento de novas ondas. Subjetividade de hoje: arrancadas do solo, elas têm o dom da ubiqüidade – flutuam ao sabor das conexões mutáveis do desejo com fluxos de todos os lugares e todos os tempos, que transitam simultâneos pelas ondas eletrônicas.”
O som age como um catalisador da alma, desfazendo o corpo em pontos de luz, que transitam e se confundundem no espaço/tempo, produzindo ondas e conexões energéticas.
Corpo sem sentido, mais sentidos, sentindo-se – eternizando o instante que o transforma, deforma, reforma. É a vontade em ação construindo um corpo, que através do espaço/tempo se desmancha em movimentos e fluxos de pensamentos, subjetivando o ser.
No limite da profundidade dos corpos constitui-se uma superfície metafísica, responsável pela eminência da ação. Ritualizados pela alteridade, para uma construção de si através da potência vital e energia pulsante do outro os corpos absorvem a química da alma para tanto revigorá-la. Desprendidos da conotação “real” do “eu” encontram-se mergulhados em sua subjetividade, onde pulsa a essência do desejo e perpassam conexões de fluxos, tornando-se vibráteis e sensíveis à realidade singular da existência.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Título esfarelado


A minha arte se reparte

Em toda parte vejo os súbitos pedaços

Porque não cessa de se refazer.

No ímpeto do esforço humano ali estarei

Reproduzindo-me

Sob o drama de desfazer a carne e construir o espírito.

Sinto o que está perto

E nada mais se torna distante.

O corpo que preciso é o que eu não tenho


O corpo performático não está pronto, nunca estará pronto, pois estar pronto é estar limitado, amarrado a uma rede de raízes e sentidos que o domesticam e o impedem de ser verdadeiramente concebido. Não se pode chegar verdadeiramente ao corpo, mas colocar-se em estado de corpo, de construção vital e letal, de autofagia, matar um e criar outro a cada instante. É vontade e pensamento em ação concebendo a carne, atravessada por fluxos, pela energia pulsante de um estado de pleno desejo, desfazendo-se em mil pedaços e se reconstruindo... Agora, sem pés, pernas, barriga, pescoço, cabeça, sem vísceras, sem órgãos, como o ser resignado à própria condição imortal de ser, que não serve, não concebe, não aprende, não ordena. Ser no fluxo, no desejo da ação, sem limites, sem corpo.
Negar o corpo é aceitá-lo em seu aspecto mais sublime, pois sua ausência torna-se verdadeira presença, que fala, que grita, que se coloca no espaço e não segue condicionamentos e automatismos físicos e mentais, nascendo e morrendo um milhão de vezes, em diferentes estados de tempo e espaço, imergindo na busca por um corpo inacabado para sempre.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Estar no mundo


O fascínio que encontro, e é onde e stá a minha verdadeira paixão, vive sob a profundidade do que há de mais vivo na ação, no corpo que a produz, no espaçotempo que a acolhe, onde se inscreve o sonho e a poesia, o real e o metafísico e o Duplo se instaura como propulsor de uma angústia, de uma incerteza do lugar em que realmente estou, do corpo que abrigo, ou que me abriga, do tempo que vivo, suficiente talvez, para travar com o inconsciente uma batalha fervorosa pela busca de algo que posso jamais encontrar, pois realmente não sei se desejo encontrar, e isso não se faz necessário.... Coloco-me no centro de um imenso vazio de coisas sem sentido, em que o sentido abordado se encontra com o sentido de senti-las como um turbilhão de vivências, experiências asfixiantes, que esmagam meus pensamentos e idéias que eu tenho sobre essas coisas, sobre o que sou e o que pretendo ser diante do cruel, do implacável, de verdades estupradas por um sentimento de dor, dor por há muito não ter enxergado a vida que está por trás de tudo. E é essa vida, que atravessa a alma e esvazia o corpo, que vem para nos enfrentar, para desesperadamente nos fazer enxergá-la. É por ela que me exponho, que desnudo meu olhar e compartilho as idéias que hoje se instalam em minha alma como a peste nos órgãos essenciais do corpo.