O corpo performático não está pronto, nunca estará pronto, pois estar pronto é estar limitado, amarrado a uma rede de raízes e sentidos que o domesticam e o impedem de ser verdadeiramente concebido. Não se pode chegar verdadeiramente ao corpo, mas colocar-se em estado de corpo, de construção vital e letal, de autofagia, matar um e criar outro a cada instante. É vontade e pensamento em ação concebendo a carne, atravessada por fluxos, pela energia pulsante de um estado de pleno desejo, desfazendo-se em mil pedaços e se reconstruindo... Agora, sem pés, pernas, barriga, pescoço, cabeça, sem vísceras, sem órgãos, como o ser resignado à própria condição imortal de ser, que não serve, não concebe, não aprende, não ordena. Ser no fluxo, no desejo da ação, sem limites, sem corpo.
Negar o corpo é aceitá-lo em seu aspecto mais sublime, pois sua ausência torna-se verdadeira presença, que fala, que grita, que se coloca no espaço e não segue condicionamentos e automatismos físicos e mentais, nascendo e morrendo um milhão de vezes, em diferentes estados de tempo e espaço, imergindo na busca por um corpo inacabado para sempre.

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